Moda

O Novo Sempre Vem

Todo ano, o Departamento Cultural do Itamaraty publica a revista “Textos do Brasil”, cujo objetivo é divulgar no exterior a cultura e a realidade de nosso país. Para 2011, o tema escolhido foi moda brasileira, e para esta edição fui convidado para escrever um texto explorando o panorama de novos estilista na indústria nacional.

O tema é mais do que complexo e praticamente impossível de ser discorrido com profundidade em apenas uma matéria. O que tentei fazer foi expor, em linhas gerais, o real cenário que jovens estilistas encontram quando decidem lançar suas próprias marcas.

O Novo Sempre Vem

Moda no Brasil pode ser um assunto um tanto delicado. Em tempos de mundo globalizado e de desejos instantâneos, é comum esquecer de que a cultura de moda nacional encontra-se ainda em estado embrionário. Ainda somos um país extremamente jovem. 511 anos de idade, é quase nada comparado aos outros gigantes da moda como França, Itália e até mesmo a Ingalterra.

Ao longo de nossa história, o colonialismo – e sua mentalidade que se perpetuou por séculos após proclamada nossa independência – manteve os olhos sempre voltados para o mundo velho, refutando qualquer manifestação de moda de aspectos puramente tupiniquins, de modo que uma real cultura de moda brasileira demorasse décadas para começar a ser construída.

Isso, porém, não significa o fim dos tempos. A ausência daquela tradição rígida que acompanha legados históricos pesados, pode em muito ser benéfica, ainda mais em tempos ultra-velozes como os nossos. Ainda que em situação e período completamente diferentes, foi justamente por não carregar nas costas as convenções do vestuário ocidental que os estilistas japoneses tornaram-se referência na vanguarda da moda desde os anos 1980. Assim, o Brasil mostra-se não só como um fértil, mas também poderoso terreno para novos talentos.

Não que o caminho seja fácil. “Ser criativo hoje já não basta”, afirma o consultor de marcas, Beto Guimarães. “Quando você vai abrir uma marca é preciso ter em mente que você estará concorrendo diretamente com o Bom Retiro, com as marcas internacionais e com marcas nacionais que já existem há 15, 20 ou 30 anos – uma concorrência absurda”. Segundo ele, atualmente, o mercado exige que o estilista tenha bons conhecimentos de negócios, vendas e marketing, além daquelas tarefas habituais de um criador.

Pedro Lourenço, um dos principais nomes da nova geração de estilistas brasileiros, atualmente desfilando suas coleções em Paris, já afirmou repetidas vezes que hoje é extremamente necessário conhecer os mais diversos processos que envolvem a gestão de uma marca. Wilson Ranieri, outro importante expoente da nova safra de designers made in Brazil completa: “Nossa profissionalização do setor, que avança continuamente, já caminhou bastante e tem muito pra caminhar, exige que as pessoas tenham mais do que ideias para começar”.

Contudo meramente entender de negócios, comunicação, vendas e logísticas não é tudo. É necessário também entender as necessidades e tempos de cada uma dessas áreas. Quando nos anos 1990 os grandes conglomerados de luxo passaram a administrar nomes estabelecidos na moda, houve uma brutal inversão de objetivos: não mais a criatividade, e sim ao lucro a qualquer custo.

Isso, somada à aceleração da era digital do início dos anos 2000, trouxe impactos que poucos haviam previsto. Com o crescente acesso a informação, a democratização da informação de moda em escala global, o consumidor passou a se tornar cada vez mais exigente, sempre aspirando por mais informação. Em outras palavras, hoje já começamos a presenciar um movimento de indivíduos cansados a banalizações.

“As pessoas querem se diferenciar e fazer parte ao mesmo tempo”, explica Guimarães sobre a crescente rejeição de campanhas, vitrines e marcas que simplesmente mimetizam estilos ou vontade vigentes, sem acrescentar nada de novo. “Agora é o momento em que precisamos fazer uma pausa para observar algumas coisas que mudam nossas percepções do que é comercial, do que é conceitual…”

“Tem que fazer a informação ficar cada vez mais presente; as pessoas precisam de diferenças, de qualidade, de design…”, comenta Wilson Ranieri.

Junto com Fábia Bercsek, Simone Nunes, Priscilla Darolt, Gisele Nasser, J. Piggy, Carolina Gold e Pitty Taliani da Amapô, Karlla Girotto, Ed Inagaki e Emiliene Galende, Wilson integra o que hoje mostra-se como a primeira geração de jovens estilistas que sofreram as dores iniciais de uma nova marca inserida numa era em que a internet e toda sua aceleração passaram a gerar efeitos reais sobre o modo como se fazia e vendia moda. Foram eles, alguns dos responsáveis por injetar imenso frescor na moda nacional dos anos 2000. Misturando elementos puramente brasileiros com outros das mais variadas partes do mundo, além de peculiaridades do estilo e universo criativos próprios.

“Eles foram também um dos primeiros estilistas que perceberam que para se ter e manter uma marca, não é mais suficiente simplesmente abrir uma porta, mas sim fazer uma série de outros investimentos”, explica Guimarães.

As soluções foram das mais diversas e criativas possíveis: Gisele Nasser hoje é estilista da Cori, Priscilla Darolt recentemente vendeu parte de sua marca para um grupo investidor, Fábia Bercsek prepara-se para lançar uma estrutura de vendas on-line, a Amapô aposta em desfiles ultra-criativos, enquanto foca-se na venda de jeanswear no fronte comercial, Ed Inagaki presta serviço para outras marcas, Simone Nunes acaba de afastar temporariamente da moda para dedicar-se aos estudos e Wilson Ranieri está dando início a um projeto paralelo à moda.

“Hoje acredito que ainda há mais profissionais se formando e que conseguem integrar tudo, marketing, administração etc., de uma forma melhor”, diz Wilson. É o caso de toda uma nova geração recém chegada no mercado e já com toda uma estrutura comercial. Cynthia Hayashi, Karin Feller, Fernanda Yamamoto, Sann Marcussy e a marca Juss.

A maior parte deles ganhou considerável projeção dentro da Casa de Criadores, evento idealizado por André Hidalgo, hoje uma das principais plataformas de lançamento de novos nomes na moda brasileira. E se antes Hidalgo selecionava seus participantes levando em conta apenas o lado criativo, hoje já não vê mais assim. O evento passou recentemente por uma reformulação em seu line-up de marcas, adequando-se as atuais necessidades de mercado. Atualmente para fazer parte da Casa de Criadores é preciso que a marca tenha um plano de negócios e pelo menos um ponto de venda. O mais interessante, é que nem por isso o evento perdeu seu caráter underground, muito menos o experimentalismo característico de novos designers.

Paulo Borges, diretor criativo do Fashion Rio e São Paulo Fashion Week, também pretende retomar seu projeto voltado a novos talentos. O Hotspot, evento do qual saiu boa parte dos novos estilistas do começo dos anos 2000, deve voltar, segundo boatos, todo reformulado, prometendo ainda mais espaço para novos estilistas. Afinal, o novo sempre vem.

Por Luigi Torre

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